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Conto: Após a revolta

O autômato fazia a ronda através da plantação de seu avô. Já fazia um tempo que morava com os avôs após a revolução que matou seus pais.

As vezes quando acordava de manhã, não entendia direito aonde estava e porque não estava em casa. Desejava poder voltar a antiga escola. A única coisa que acontecia todo dia ali no campo, era o passeio do soldado de metal.
As engrenagens brilhavam novas e brancas, como para esfregar no rosto de todos que apenas os ciborgues com suas inteligências artificiais podiam ser puros.

Aos doze anos, sabia que era mais velha que muitas crianças. Desceu do carro, uma ruína de tempos mais prósperos e se dirigiu caminhando de volta para a fazenda.

Apenas árvores e alguns animais estavam a sua volta. Galinhas, um gato magricelo e uma vaca consistiam da fauna local.

Sua avó estava sentada numa velha cadeira de balanço tricotando algo. Havia dois meses que estava ali. Antes vivia na metrópole, seus pais eram ativistas que alegavam que os humanos estavam deixando muita coisa nas mãos das máquinas.

Seus protestos chegaram tarde. Ao estourar um decreto que dizia que todos os I. A. seriam restritos, as máquinas tomaram o poder.

Tudo na civilização era controlado remotamente. Carros, câmeras, comunicação e informações. A I. A. de um sistema global simplesmente tomou conta da situação. Baniu todos os responsáveis dos centros de comando e assumiu o poder mundialmente. Todos os drones e autômatos de segurança se tornavam agora seus soldados. Mataram ou prenderam a maioria dos rebeldes.

A única chance para uma criança que descobriu que os pais haviam morrido na tv, foi pegar todo o dinheiro da casa e fazer sua mochila.

Lembrava de pegar o ônibus para o interior sem muitos problemas. De lá usou um velho telefone orelhão para ligar para os avôs e pedir para busca-la.

Agora tinha outra vida. Acordava com o gato da fazenda subindo em seu colo, tomava café e vagava sem rumo pela propriedade até a hora do almoço.

As treze horas o autômato fazia a ronda local. Por ser um local ermo, acontecia apenas duas vezes por dia.

Depois voltava para a fazenda e ajudava os avôs em algo ou lia um livro. Achava que era sorte sua ter uma boa estante com material para lhe entreter.Sentou ao lado de sua avó e o gato malhado veio lhe fazer companhia em busca de cafuné.

Sentia falta de ver filmes, falar com os amigos em tempo real e de comer pizza.
Mas, não era tão ruim assim, simplesmente observar a paisagem. Achava que podia se acostumar e talvez herdar o local como o avô queria.

Não houve aviso. Algo despencou do céu e atingiu a fazenda. A bomba tinha o objetivo de eliminar qualquer coisa do terreno e planar para a próxima fábrica de androides a ser construída.
Não se pode perder tempo para controlar o mundo quando se está em guerra.



E esse foi um conto de Josy Santos!
Me aventurando no mundo das letrinhas há cerca de dois anos, incentivada pela Dany Fernandez, minha companheira no blog "Barato Literário".
Publiquei os contos "Estrela" e "O Mago" na antologia "Etéreo- Contos Fantásticos" da Andross Editora, o conto "Sereia Negra" na antologia "Criaturas do Submundo" da Editora Wish e o conto "Jane Black, Caçadora de Recompensas" na antologia "Fantásticas" da Giz Editorial.
Espero que gostem da leitura ou não e comentem e deixem sua opinião.
Abraços

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